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Quanto eu deixaria de aprender ???

 

* (Por Paula Tooths - Colaboradora do jornal A Hora -
Jornalista especializada em produção de cinema e tv em Londres em broadcasting co.)

Eram sete da manhã e eu já estava no escritório. Já estava irritadinha. Preparava o dia em que a minha equipe deveria cumprir uma importante tarefa. Organizava a agenda. Respondia e-mails. Tudo ao mesmo tempo, quando um velho amigo chamou. Ele reclamava da vida, dos chefes, dos fornecedores e dos clientes. Entrei no embalo e reclamei até da sorte.


Aplaudíamos nossa ignorância cosmopolita quando eu interrompi porque precisava de alguns segundos para processar em meu cérebro ocupado, o que estava acontecendo em minha vida. Eu não reconhecia nenhuma das imagens que eu avaliava de olhos fechados. Nada fazia sentido. Tentei buscar na alma uma explicação para os últimos anos. Questionava o coração por uma boa razão para a minha vida.

Enquanto eu pensava, meu amigo não parava de explicar a razão que ele conhecia para os últimos dias no trabalho. Ele queria que tudo fosse a maneira dele e esta era a única verdade do mundo. Explicava e tentava achar mais argumentos para me convencer que ele não tinha nenhuma culpa pelo próprio nervoso, que ele já tinha chegado onde queria e assim por diante.

Na verdade, nunca vamos chegar lá. Até o nosso “lá” é distante e cada vez que acreditamos ter chegado ao topo ou que ganhamos uma batalha, queremos continuar só pela adrenalina da próxima Vitória. E o que ganhamos? Mesmo a derrota enobrece! Deixamos de dar a real importância a uma Vitória para dar atenção a mais um desafio. Porque queremos ou porque os outros querem que seja assim? É assim que nos ensinam. Mas não nos ensinam o que fazer com a Vitória. A Vitória torna cada um de nós diferente, mais sábio. Mas o que fazer com o nosso “novo eu’’?

Mais uma vez, interrompi a chuva de reclamações e trovões com rótulos e fiz com que ele escutasse o que meu coração advertia:

O primeiro passo é desacelerar, até parar completamente. Então, respire! Respire fundo e respire de novo. Até ficar zonzo, bagunçar a ordem das coisas e colocar as coisas em ordem de novo, na ordem que você decidir que será melhor para você mesmo, até que você possa ver a sua própria vida de forma bem clara! Assim até poderá alinhar cada um de seus pensamentos em fila e ainda ganha mais; aprenda a realizar cada tarefa em seu momento, fazer uma coisa por vez.

Inclua em seu roteiro as surpresas da vida, que, diga-se de passagem, são imprevisíveis. Nem que eu fosse a melhor advinha do mundo, conseguiria ler antecipadamente a biografia de nenhum ser, antes de ser vivida, nem com previa autorização.

Depois coloque em destaque na parte dos avisos, que a vida não é justa. Não da forma que gostaríamos e acrescente que somos impotentes para muitas coisas. Não somos deuses, donos da verdade e que nem sempre é a nossa razão que prevalece.

E que as pessoas não são iguais. Que ninguém é igualzinho a gente e isso significa que ninguém pensa, pode sentir ou consegue fazer absolutamente nada igual a você. Ninguém pode ver com os seus olhos, nem sentir com seu coração, nem fazer com as suas mãos, nem relembrar as suas memórias, muito menos entender a sua razão. Nem sonhar seus sonhos. Os sonhos são seus e sonhar que alguém seja exatamente como você deseja é realmente pedir demais. Cada um é o que é, goste você ou não.

Não espere que as pessoas sejam outras pessoas! Cada um sabe por si, a dor e a delicia de ser o que é. Cabe a você querer que as pessoas continuem em sua vida ou não.

Não deveríamos esquecer que ainda que fossemos do poder judiciário e da magistratura, não temos poder humano de julgar um semelhante. As pessoas são diferentes, assim como suas razões e explicações. O único julgamento aceitável é que as pessoas façam ou não parte de suas vidas!

Mesmo que muito nervoso, o seu silêncio poderá salvá-lo de muitos problemas e confusões. Reflita antes de lançar qualquer palavra ao universo. Palavras têm poder e vida própria!

Lembre-se que as pessoas não cruzam nossas vidas por acaso. Todas levam muito de nós, mas pretendemos não reparar o quanto nos deixam.

Sempre temos algo mais a aprender. Ninguém nasce sabendo, nem quando você gostaria que elas soubessem algo. Que tal, ensiná-las? Ou mostrar o caminho do aprendizado?

Mas vá devagar, sem pressa. Se a sua verdade for uma boa razão, você os convencerá. Neste caso, a sua maneira de fazer as coisas prevalecerá!

Não deseje os desejos alheios. Não sonhe os sonhos de ninguém, só os seus. Mas questione as razões dos seus próprios sonhos. Verifique se ali, os seus desejos estão de verdade, se este ou aquele caminho poderá fazê-lo feliz!

Não rotule as pessoas, os chefes, os fornecedores, os clientes. Se alguém estiver diante de ti, com o poder de decisão na sacola, esta pessoa merece algum respeito, não?

Se alguém tem o poder de decisão é porque de alguma forma, chegou ao topo antes do que você e por isso, algum conhecimento tem. Diferente ou ainda melhor que os teus. Não é melhor do que reclamar, aprender com essas pessoas algo que, provavelmente, você ainda não saiba?

Seja paciente! Ainda bem que mesmo que você não tenha nascido com uma porção de paciência, poderá adquirir ao logo de sua vida, com mais paciência ainda.

Teu comportamento será fundamental. Se prometer, cumpra. Se disse sim, faça disso uma verdade. Se disse não, a cor da história muda um pouco. Às vezes precisamos ser flexíveis e resistir até nosso orgulho. Mergulhar no novo muitas vezes é difícil. O novo assusta. A novidade amedronta. Mas o tempo é dono também das conclusões.

Se você não baixar a guarda, não segurar a onda entre milhares de outras personificações que eu poderia encontrar para exemplificar, você não realizará de maneira perfeita e/ou perfeccionista nenhuma tarefa. A vida, como tudo, também precisa de pausas.

Se desejar aquecer a mão pessoalmente no astro Sol ou dançar com as estrelas nas festas do céu, vá devagar, de mansinho, ganhe espaço. Ensine o que você conhece. Aprenda o que as pessoas têm a oferecer. Todos têm algo a ensinar! Enriqueça sua mente e sua alma e não se preocupe em acumular tanto nos bolsos.

Seja firme. Mas não acredite que mascaras, saltos ou paletós possam demonstrar algum poder. O brilho ou a sombra vem de sua essência. O sucesso depende de seus talentos e a prosperidade de sua persistência.

O poder está em você e não no que as pessoas agregam a sua imagem. Mas parecer muitas vezes faz muito mais efeito do que ser. Outras vezes, arruina tudo. O melhor mesmo é ser transparente: ser e parecer a mesma pessoa.

Você pode fazer qualquer coisa que sonhar. Você pode chegar a qualquer esquina do mundo que desejar. Mas tem de ser aquilo que seu coração deseja de verdade para ser realizado.

Vá devagar. Mas não vale desistir no meio da Estrada e prender-se ao primeiro retorno. Vá devagar, pare no farol, leia com cuidado as placas, reduza na lombada, mas não desista do objetivo. Chegar a meta é mais do que um prêmio material. E uma satisfação pessoal.

Depois de tantas regras de vida que eu mandava por essas ao meu amigão, ele finalmente entrou em meu monótono monólogo e contou que acabará de encaminhar um e-mail muito educado para as pessoas, ao chefe e etceteras, enfim, para todos que ele falava mal minutos antes.

Agradeceu-me. Disse ao meu amigo que os agradecimentos eram dispensáveis e que eu apenas tinha emprestado o meu caderno para que ele copiasse uma lição de um dia que ele faltou na escola da vida e que tenho certeza que eu poderia contar com os fichários dele emprestados nos dias em que eu não pudesse comparecer a alguma classe.

Ressaltei antes de desligarmos, para responder muitas perguntas, não só dele, minhas também:
Se não sou o que você gostaria de encontrar numa amiga, ou se não estou onde você gostaria que eu estivesse, e porque este destino não faz parte de meus sonhos.

Se não sou exatamente como você gostaria que eu fosse, e porque não é como eu gostaria de ser.

É muito claro que hoje, aos trinta anos, eu poderia estar casada com um marido ótimo, próspero e que me amasse muito, com duas ou três crianças saudáveis e felizes, cheias dos brinquedos e com muitos afazeres para me chamar de mãe, uma carreira mais do que brilhante, diversos livros publicados, prédios construídos. Poderia ainda morar em uma casa de madeira gigante, onde tivesse sol em todas as pontas, uma varanda enorme e de frente para o mar, ou então no topo de uma colina. Poderia sim...
Mas, e o que eu teria deixado de aprender? O que eu teria deixado de ver e sentir?

Esses eram os sonhos dos meus amigos e da minha família, mas não eram os meus. Eu decidi viver, com toda a intensidade que eu pude. Eu não poderia ter vivido um sonho que não era meu. Eu precisava aprender, e eu sabia disso. Mas eu tinha fome de aprendizado. Usar da minha juventude como forte fonte de energia e caminhar em passo lento. Aprender por mim mesma em que sistema vivemos e decidir exatamente o que seria melhor para meu futuro. Não porque nenhuma outra pessoa quisesse assim, mas eu sim.

Se eu fizesse como a sociedade ou muitas das pessoas ao meu redor desejavam, quanto eu teria deixado de aprender? Eu não teria perdido muito mais?

Se cometi erros ou não entreguei a vida muitas tarefas em dia, foi porque encontrei alguma energia extra no caminho para me abastecer, mas mesmo assim, sei que segui e conclui todos os meus deveres.

Se falhei, ou atrapalhei-me com alguma tarefa a ser executada, foi porque prestei atenção em mim mesma, cuidei de me amar ainda mais e não deixei que ninguém me magoasse.

Se antecipei algo é porque sempre tive pressa, mas só para ser feliz.

Se falei algo que não devia, era apenas porque eu não conseguia encontrar o momento ideal, mas era o que eu pensava.

Faltava amadurecer, mas quanta coisa eu teria deixado de viver? Quantas viagens eu não teria realizado, quantos sonhos eu teria deixado para a próxima vez? Quanto eu teria deixado de aprender?
Viver os meus próprios sonhos me deu poder. Poder de decisão. Pude escolher cada um dos momentos de parar e recomeçar e este é mais um momento de recomeço. De decidir que roteiro usar, em que destino desejo chegar.

Bacana foi fazer esta viagem bem longa, aproveitar cada uma das cenas que encarei nestes anos e poder usar para sempre tudo aquilo que eu absorvi.

Dinheiro e boa remuneração deixam de ser protagonistas. Entram para o próximo episódio, qualidade de vida e felicidade. Muita felicidade, sem fim.

Quero todas as cores do arco-íris em meus sorrisos. Quero todas as minhas sensações sempre ativas. Quero ficar rouca de tanto rir. Quero a paz dos anjos e o “rush” dos heróis. Mas só sei que quero tanta coisa, porque vivi muitas outras. Vivi intensamente todos os momentos. Jamais fui inconseqüente, mas precisei arma-me de muita coragem e ser bravíssima para com cautela, dar o próximo passo.

Saber só de que não gostamos não basta. É sempre necessário mais. A busca da felicidade é infinita e deve ser incansável. É preciso ainda descobrir seus talentos pessoais e tudo aquilo que cada um de nós ama.

Quero muitas coisas. Quero viver intensamente, mas agora novas estradas. Nunca tive medo de desafios e talvez este seja o maior de toda a minha vida. Crescer não é fácil e ser feliz requer manutenção sem parar. Penduro algumas chuteiras pessoais e profissionais para dar lugar as novas sapatilhas que vou calçar.

Aos marujos e amigos a bordo, informo que agora a música será mais lenta, mais sutil. Mais madura, o que eu nem precisaria mencionar. Carreguei-me de novos sonhos e como as metas também são novas, mato esta fase de minha vida, para vencer batalhas que virão adiante. Mas nada disso eu poderia fazer realidade, se um dia eu não tivesse me aventurado. Ou se eu tivesse optado seguir o que a sociedade queria para mim. O que meus pais, avós, tios, primos, irmãos e amigos sonharam para mim era diferente do que eu sonhava. Se eu não tivesse seguido meu coração, quanto teria deixado de aprender?

Claro que também chorei, sofri, fiquei agoniada. Mas eu não poderia ser o que eu sou se eu não tivesse aprendido tanto até com o sofrimento.

Eu e meu querido amigo, terminamos a conversa com risadas e a promessa que eu faria um texto de tudo aquilo que falamos pela manhã.

Foi incrível, eu estava calma, não gritei e nem briguei com nenhum dos meus funcionários. Pelo contrário, criei um novo sistema para trabalharmos a nossa nova equipe. Lá não era mais o nosso escritório, mas o laboratório de comunicação da escola. Eu não era mais a chefa, mas também um dos estudantes.

Todos tem a aprender, mas todos também tem a acrescentar!

Porém, o time que formamos precisava de um capitão. Fui a escolhida para reportar tudo aos nossos superiores, pois alguém teria de intermediar e bem ou mal, na “vida real” eu deveria continuar a líder e segurar a peteca daquele grupo todo.

Inacreditável, mas nesta data, minha amada equipe produziu o dobro, bateu metas e concluiu a tarefa que até a minha chefa, acreditava ser impossível. Descobrimos que é verdade que gente feliz produz mais e trabalhar em equipe só faz bem, são varias cabeças que pensam ao mesmo tempo e várias mãos que produzem juntas!

E se eu tivesse seguido os sonhos que não eram meus, nada disso eu teria aprendido.

Obrigada aos amigos que seguraram a minha onda, aos que puxaram as minhas orelhas, aos que me convidaram para este espetáculo chamado vida!

Obrigada até mesmo as pessoas que tinham outros sonhos para mim, mas contentavam-se em ver-me feliz ou tentando ser feliz seguindo os meus próprios sonhos.

Obrigada a quem teve paciência de estar ao meu lado e ver-me chegar até aqui. Obrigada pela paciência de estar perto e aprender quem sou e as razões que tenho para cada parte da minha própria história.

Obrigada a todos que respeitaram os meus sonhos, aos que não me rotularam e nem me julgaram. Mais agradecida ainda, por todos os conselhos que vocês me deram.

Obrigada as criticas e sugestões.

Mas, o que faz de mim madura não foram só vocês que me amaram, apoiaram e me defenderam.

Obrigada, principalmente aos que me odiaram (nem que por um instante), magoaram e me machucaram. Sem dor, eu jamais, nem na mais remota hipótese, teria aprendido tanto.
Obrigada por tudo.

Agradeço a cada ser vivo, que de qualquer maneira tenha passado pela minha vida. Não espero ter ensinado muito e nem que tenham carregado consigo parte de mim por toda a vida, mas agradeço por um instante ter feito parte da minha vida e tanto ter deixado.

E o que eu teria deixado de aprender se não tivesse feito tudo que fiz?

Eu jamais seria esta pessoa que neste momento acaba de escrever com o coração este texto.

Agora parém, confundam seus instintos e depois coloque tudo no lugar, do jeito que cada um de vocês bem entenderem. Façam tudo o que sonharem, mas não deixem em nenhum momento de serem felizes. Da um trabalhão, mas vale a pena!

Desejo que cada um de vocês transformem-se exatamente na pessoa que sonham ser!

Sonhe, vá, veja, viva. Vá para onde quiser. Use as asas de sua imaginação. Chegue onde quiser chegar para ficar ou para voltar. Voe para encontrar os seus sonhos.

Coloquem mais verbos na rotina!

Abrace o tempo, pegue carona com o vento e mesmo nas imperfeições que encontrar na vida, seja feliz!

Mas jamais deixe de aprender!


Beijo no coração e paz na alma;


Paula Tooths Guedes