O
incrível Hulk

*Por
Rodrigo Assis, colaborador do A Hora - ONLINE, iluminador
e técnico de luz em espetáculos teatrais e shows,
fotógrafo, ator por 10 anos em companhias de teatro
e alguns curtas metragens.
E-mail:artecinema@ahoraonline.com.br
Se você procura roteiros
elaborados com múltiplas camadas de interpretação
e personagens com um nível literário de complexidade,
este filme talvez não seja o mais indicado. No entanto,
se o que você gosta mesmo é de uma baita pancadaria,
muita perseguição e uma dose balanceada de humor
e romance, “O Incrível Hulk” foi feito,
literalmente, sob encomenda para você.
Comprometidos com o entretenimento
de massa, os Estúdios Marvel fazem uma clara tentativa
de
revitalizar
uma franquia que começou em 2003 (ao menos comercialmente
falando) com o pé esquerdo. O novo capítulo
da série produzido inteiramente pelo estúdio
(o filme anterior era uma co-produção com a
Universal) pega carona no surpreendente sucesso de “Homem
de Ferro” e reapresenta um dos mais populares heróis
dos quadrinhos em uma versão recheada de testosterona
do início ao fim.
As críticas mais severas
à primeira introdução de “Bruce
Banner/Hulk” ao século 21, dirigida com talvez
excessiva sensibilidade por Ang Lee (indicado ao Oscar por
"O Segredo de Brokeback Mountain"), referiam-se
à falta de ação e ao excesso de diálogos
longos e pesados com explícitas referências freudianas.
Para dificultar ainda mais a identificação do
cada vez mais tecnicamente exigente público alvo, os
adolescentes, o filme sofria com os ambiciosos, mas ainda
precários efeitos digitais.
A narrativa verborrágica
de Lee foi substituída pelo frenético trabalho
de câmera do francês Louis Leterrier, que assume
a direção com dois fatores predominantes na
bagagem: um raro talento na criação de elaboradas
e empolgantes cenas de ação e uma declarada
afeição pelo lendário seriado da década
de 70 do herói que serviu de principal referência
para o novo projeto.
Edward
Norton (“O Ilusionista” e “Clube da Luta”)
foi chamado para substituir Eric Bana como personagem central
da trama, e não satisfeito com o roteiro, impôs
a condição de reescrevê-lo para aceitar
o convite. Liv Tyler calça os sapatos que antes eram
de Jeniffer Connelly, William Hurt encarna o impetuoso General
Ross e Tim Roth completa o elenco principal como o unidimensional
e caricaturesco arquiinimigo de Hulk, chamado ironicamente
de Abominável.
Para deleite dos fãs
mais ardorosos não faltam participações
especiais de velhos conhecidos como Stan Lee (criador do personagem
e que sempre faz questão de dar as caras nas adaptações
cinematográficas de suas criações) e
do lendário e espantosamente ainda em forma Lou Ferrigno,
que fazia dupla com Bill Bixby no papel principal da extinta
série para a TV. Agora ele empresta a voz à
versão monstro do herói com direito a uma participação
relâmpago em uma das mais bem-humoradas seqüências
da projeção.
O filme não perde tempo
com exposições detalhadas e desde o início
estabelece o conflito que permeará o restante da película.
Contaminado por excessivas doses de raio Gama, Banner transforma-se
em Hulk e escapa dos militares que o querem como arma. Refugiando-se
no Brasil, ele luta para encontrar uma cura para sua estranha
condição enquanto trabalha em uma fábrica
de engarrafamento. As seqüências filmadas no Rio
de Janeiro (na favela Tavares Bastos e no bairro de Santa
Teresa e Lapa) são de especial interesse do público
brasileiro já que parecem diretamente extraídas
de sucessos populares recentes do cinema nacional como “Tropa
de Elite” e “Cidade de Deus”.
O roteiro de Zak Penn (“X-Men
– O Confronto Final”) com as pitadas de Norton
não parece ser a maior preocupação da
Marvel e os mais atentos poderão notar uma série
de buracos e a escancarada influência de filmes como
"King Kong" (assim como de qualquer história
baseada na premissa de “A Bela e a Fera”) e mais
recentemente de “Transformers”, especialmente
na ruidosa, embora tecnicamente admirável, meia hora
final.
O cinema vive, para o bem ou
para o mal, a era dos filmes de super-heróis. A revolução
dos efeitos digitais tornou possível alcançar
um resultado visualmente satisfatório de qualquer adaptação
dos quadrinhos para a telona, e os executivos dos grandes
estúdios não perderam tempo. Uma grande parcela
do faturamento bruto de Hollywood vem das aventuras dos super
poderosos e suas infindáveis continuações.
Uma vez estabelecido este padrão, surge a inevitável
preocupação com o eventual desgaste da fórmula
e a solução encontrada para atrasar este processo
começa a ficar evidente na cena final do longa.
Com a inesperada aparição
de outro carismático herói, os Estúdios
Marvel inauguram a era da interação cinematográfica
de suas franquias que visa à criação
de uma espécie de “Olimpo contemporâneo”
onde os “deuses” juntam forças para proteger
a humanidade. Os fãs certamente agradecem enquanto
o restante dos amantes da sétima arte acompanha sem
muita expectativa o desfecho de uma das mais repetitivas fases
que o cinema já vivenciou e que, ao que tudo indica,
está apenas começando.