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Jogou a mãe no mar e foi “bebemorar”

 

Por Walter Navarro - Colaborador do A Hora - ONLINE - Eescreve para o jornal O TEMPO de Belo Horizonte todas as quintas
e-mail:
wnavarro@uol.com.br

Como contei semana passada, estive no Rio de Janeiro, em férias, mas a trabalho: desovar um cadáver... Sorry! Fui infeliz na colocação.

Na verdade, numa Cerimônia do Adeus; acompanhei o amigo Boquette (nome de guerra de Luiz Fernando Borgerth) que, temendo represálias do Além-Túmulo, prefere guardar o anonimato.

Boquette foi jogar a mãe no mar. Melhor, foi jogar as cinzas de sua querida mãezinha, Gilda, A Inesquecível; nas águas abissais do Arpoador.

Minha sugestão era soltá-la do alto do Matterhorn, mas...

Gilda pegou gripe suína do Edir Macedo. Ou foi vítima de bala perdida num Airbus? Só sei que era pó e ao pó voltou. Pergunte ao pó!

Aliás, vou fazer reportagem investigativa sobre cremação, pra descobrir se as cinzas finais são mesmo as dos nossos entes queridos; ou se eles acabam como soylent green; sabão, adubo, carvão...

O Brasil é foda. Se bobear, o pó que nos entregam é queima de arquivo dos Quatro Patetas do Apocalipse: fios de bigode do Sarney, supositórios do Collor, camisinhas furadas do Renan e o nariz comprido do Lula.

Você bota a mãe no forno e só pega as cinzas três dias depois? Eu heim! E o que fazem com o caixão novinho em folha? Vai pro Fome Zero ou volta pra funerária como seminovo, sob comissão e comichão? Ataúdes, ao contrário de muita mala por aí, têm alça. E de metal! Cadê elas?

Diz que, dependendo do trânsito no crematório, o cadáver fica no purgatório da geladeira... É uma brasa, mora? E se a infanta defunta for gostosa? Será que nesse ínterim, pinta um pouco de necrofilia?

CPI do Segundo Andar já!

Por isso, viajei entoando o mantra do Oliver, a hiena dos desenhos animados: “Oh Céus! Oh Vida! Isso não vai dar certo”.

Digamos que o forte de Boquette não é fazer força. Suas mãos só agarram pincel, mulher e copo. Não necessariamente nesta desordem.

Grande pintor, Boquette! Seus rodapés são impecáveis. Mentira, o cara é excelente artista-plástico, mas, nunca jogou bóias, âncoras, homens e mães ao mar.

Fazia frio e chuviscava. Assim, Gilda passou 48 horas quietinha em sua urna, no quarto do filho. Ah! Não foi só por causa dos roncos estrondosos de Boquette que fui dormir na sala.

Muito antes do filme “Uma Noite no Museu”, tem aquela música do Yves Montand que diz: “Acontecem coisas bizarras no Louvre, antes que os portões sejam abertos. Mona Lisa janta e depois vai se divertir...”.

E, por motivos óbvios, na suruba do Louvre, quem se diverte em dobro é a estátua Hermafrodita...

Pois é, de madrugada, juro ter ouvido risadas, piadas e tiradas com o sotaque carioca de Gilda. A garrafa de vinho amanheceu vazia ao lado do farelo de empadinhas e, t’esconjuro! O saco plástico de Gilda em pó estava na mesa da sala. Sim porque, sabem como os cariocas fazem o pingado? Com leite em pó e café solúvel, um sacrilégio! Lembram do filme “O Homem que virou Suco”? Pois é, quase que a Gilda vira capuccino. A sorte é que, no meio do caminho para a xícara, tinha uma cerveja gelada no meio do caminho, me fazendo mudar de idéia...

Ao voltar, Gilda já tinha se recolhido ao seu sarcófago temporário!

Impressionado, convoquei os deuses, rezei aos ancestrais e, com mais ênfase, voltei às minhas lamúrias: “Oh Céus! Oh Vida! Isso não vai dar certo...”. Iemanjá vai devolver a oferenda...

Entoando a mesma ladainha me lembrei de outro filme, no melhor estilo “Tudo Acontece em Elizabethtown”; onde o filho vai jogar as cinzas da mãe no mar da Escócia, sob chuva e ventania. Imaginem o resultado...

Passei minhas nefastas impressões ao Boquette que as refutou prontamente; afinal, afirmava ele saber tudo sobre o vento Sudoeste que sai da terra e vai pro mar. Então tá...

Boquette só não sabe que, temendo tempestades de areia e tsunamis, segui-o discretamente até o altar de sacrifícios. Eu e meu saco de risadas...

E lá foi Boquette, o Velho Lobo do Mar, com uma puta urna na mão, do tamanho e formato de um sino, jogar a mãe pras tainhas.

Disfarçado de coqueiro, fiquei de camarote...

O cara, com a destreza de uma anta em loja de cristais e uma chave de fenda (de parafuso, como dizem os cariocas), abre a urna, faz uns furos no saco e solta a mãe no vento, sem lenço ou documento.

O romântico casal ao lado... Como direi? Ficou à milanesa... O cara engoliu uma parte da Gilda, outra ficou na pedra e a mulher inalou o resto, como Keith Richards, cheirando as cinzas do pai com cocaína...

PS: Ainda bem que o casal acreditou na história de Boquette: “É terra santa que eu trouxe de Jerusalém...”.