Brasil
Mundo
Notícias
Atualidades
Cidades
Dia-Dia
Opinião
Beleza
Cinema
Colunas
Crônicas
Sexologia
Era uma vez
Automobilismo
Off-Road
Outros Esportes
Gastronomia
Imagem Digital
Vitrine

 

Foragidos nazistas: sob a proteção das autoridades

 

Por Érika Bento Gonçalves - Jornalista - Colaborado do A Hora - ONLINE, articulista dos sites O Boletim, Mandando pra RedeO Expressionista - Discutindo idéias
e-mail: ebgoncalves@globo.com
http://www.minhaopiniao.org/


O Centro Simon Wiesenthal ofereceu, através da campanha “Operação: última chance”, uma recompensa de 310 mil euros (R$ 846mil) por informações que levem ao ex-médico nazista, Aribert Heim, conhecido como o “Dr. Morte”. Heim, assim como centenas de outros nazistas, pode ter entrado na América do Sul com a ajuda das autoridades, inclusive as brasileiras.

Heim é acusado de ter matado milhares de judeus no campo de concentração de Mauthausen. A campanha, que foi lançada na Argentina, no último dia (27/11), deve ser chegar ao Brasil a qualquer momento.


É inacreditável que monstros como Heim e tantos outros possam ter saído impunes dos horrores que proporcionaram durante a Segunda Guerra Mundial. No saldo sangrento deste episódio, estão 40 milhões de mortos, entre eles, cerca de seis milhões de judeus, dois milhões de eslavos e outros 200 mil civis (como ciganos e testemunhas de Jeová).


Nos seis anos de terror impostos por Hitler e seus aliados (1939-1945), as mortes – diferentemente de outras guerras – não foram frutos inevitáveis de conflitos armados. Sob o manto do interesse econômico, estava uma eugenia distorcida e doentia.


Se o extermínio de milhões de seres humanos já é considerado um ato imperdoável, o modo como estas pessoas foram usadas - de cobaias em experiências “médicas” a escravos sexuais - tornam estes homens mais do que carrascos. São inomináveis.


E, depois de tudo o que proporcionaram, ainda tiveram a proteção de pessoas e governos em suas rotas de fuga. Entre eles, os países da América do Sul. Estima-se que cerca de 150 a 300 nazistas se refugiaram na Argentina depois da guerra. Para o Brasil, vieram em torno de dois mil alemães. Quantos destes eram criminosos de guerra, ainda não se sabe. Mas há indícios de que o Itamaraty tenha colaborado com os oficiais do Terceiro Reich.


O governo federal liberou, em 1997, mais de 20 mil documentos dos arquivos da antiga Delegacia de Ordem Política e Social (Deops) em que constam cartas entre as representações brasileiras em Roma e Berlim. Estas correspondências, que estão sendo analisadas pela professora Maria Luiza Tucci Carneiro, da Universidade de São Paulo, mostram como a nossa diplomacia fechou os olhos para o passado nazista de empresários, engenheiros e ex-militares - que eram encorajados a usar nomes e profissões falsos para vir ao Brasil.


A vida dos nazistas em nosso país já foi tema de vários livros e está detalhada na edição 46 da revista Aventuras na História, de junho de 2007.


Mesmo com todo o controle que tentou se fazer para evitar a fuga dos hitleristas, sabe-se que, com certeza, quatro nomes da Gestapo vieram para o paraíso da impunidade: Gustav Wagner, Josef Mengele e Franz Stangl. Somando as vítimas de cada um destes quatro oficiais da SS, chega-se ao número de mais de um milhão de mortos. Os quatro viveram tranquilamente no Brasil por mais de duas décadas.


Aribert Heim, o alvo principal dos caça-nazistas, chegou a ser considerado morto quando o ex-oficial israelense, Danny Baz, informou, em outubro de 2007, que o médico teria sido executado, em 1982, pela organização clandestina “La Chouette”. Porém, a versão da captura e morte de Heim não é aceita por oficiais da Espanha e pelo Centro Simon Wiesenthal, que continuam à caçada ao Dr. Morte. Acredita-se que ele esteja escondido no Chile ou na Argentina. Se Heim estiver vivo, estará com 93 anos.


Desde que o Centro Simon Wiesenthal foi criado, em 1977, somado à “Operação: Última Chance”, implantada em 2002, 488 nomes estão sendo investigados e 99 nazistas foram entregues às autoridades. Os efeitos poderiam ser melhores se houvesse cooperação de todos os países. Porém, os pesadelos que assombram milhares de sobreviventes, não tiram o sono de muitas autoridades.
Só conseguimos caminhar adiante quando paramos de olhar para trás e, em algumas situações, não se trata apenas de perdão ou vingança. Sepultar o passado requer reparação dos danos com a punição devida, a demonstração de cooperação, solidariedade, respeito e – principalmente - responsabilidade.


Enquanto houver tolerância à discriminação (seja ela qual for), impunidade e conivência das autoridades, o mundo nunca estará livre de reviver os horrores dos campos de concentração. E, se olharmos com muita atenção nas diversas sociedades que se formam ao nosso redor, veremos que estes grupos estão se reorganizando, com outros nomes, outros alvos, mas com o mesmo objetivo.
Diante do que vimos no comportamento das nações no pós-guerra (e estamos vendo nos países cujos líderes beiram à anomalia) nada nos garante que, no futuro, estaremos nós oferecendo recompensas pelos algozes do século XXI.